UM TOQUE NA LÍNGUA - Lição12

Criação: Prof. Eduardo Fernandes Paes




   Juntos à carrocinha de pipocas, o Professor Edu e seus alunos continuam descontraidamente o Tira-Dúvidas.

- Mestre, o Senhor, por acaso, já tinha visto antes um pipoqueiro japonês?

- Não, Lucas, realmente ainda não tinha visto. Por quê?

- Porque o Manuel aí, nosso pipoqueiro preferido, apesar de falar sem sotaque e ter esse nome bem português, é japonês legítimo. Não é mesmo, Manuel? Aliás, não tá na língua, mas tá na cara a origem dele, né, amigão?

- Sim, Lucas. Nasci no Japão e vim para o Brasil ainda muito pequeno. Meu pai era japonês; e minha mãe, portuguesa. Uma combinação bem incomum, não é verdade, Professor Edu?

- É verdade, Manuel. Ficou bem interessante essa combinação étnica. Na sua casa, devia haver uma mistura de aspectos culturais que lhe proporcionaram uma criação e educação familiar bastante variada. De que cultura você sofreu mais influências: da japonesa ou da portuguesa ?

- Olha, Professor, acho que das duas eu recebi muita coisa boa. Por exemplo: do meu pai eu recebi uma educação muito disciplinada e grande incentivo para estudar e trabalhar. Eu é que fui meio malandro mesmo e acabei não concluindo meus estudos como devia. Mas de trabalhar eu gosto muito e tenho orgulho de ser chamado pela garotada como o melhor pipoqueiro do bairro.

- E da mãe, acho que ele deve ter recebido o gosto pelo bacalhau e pelo fado, né, Manuel?

- Mais ou menos, Lucas. Eu não gosto muito das comidas portuguesas... de bacalhau, principalmente. Adoro massas e saborear um churrasquinho todo fim de semana. E de fado... Bem, não sou muito chegado; prefiro os pagodes.

- Já viu isso, Mestre. Um pipoqueiro japonês chamado Manuel, que gosta mais de massas e churrasco do que de bacalhau e prefere pagode do que fado!? Realmente é o fim dos tempos!!!

- Calma, Lucas, isso faz parte dos efeitos da chamada globalização, não é mesmo, Professor Edu?

- Pode ser, Zeca, pode ser... O pior é que o nosso amigo Lucas, por causa do espanto que teve com toda esta mistura de culturas, acabou atropelando a gramática no seu afã de querer fazer galhofa do nosso querido pipoqueiro...

- Hummm, mas que bobagem eu disse desta vez, caro Profi?!

- Você disse que o Manuel "prefere pagode do que fado!"

- Sim, e prefere mesmo; foi ele mesmo quem falou...

- O problema, meu caro Lucas, não é a preferência dele, e sim como você apresentou, gramaticalmente falando, essa preferência. Explicando melhor: com o verbo preferir, não se deve usar a expressão "do que", Pois, Junto ao objeto indireto desse verbo, devemos empregar a preposição "a".

- Professor Edu, dê alguns exemplos do emprego correto desse verbo pra gente, então.

- Claro que dou, Norminha. Veja bem: nós sempre devemos preferir "alguma coisa a outra coisa". Por exemplo: Eu prefiro feijoada a galinhada. O Manuel prefere churrasco a bacalhoada...

- E eu prefiro as morenas a essas louras oxigenadas...

- Por que você olhou pra mim quando disse isso, senhor Lucas?! O que o senhor está insinuando?...

- Eu não estou insinuando nada, Luana. Quero que um raio caia na cabeça do Zeca se eu estiver ao menos pensando que você é uma loura oxigenada!!!

- Na minha cabeça, não, seu cretino!

- Calma, turma. Não vamos perder tempo com essas brincadeirinhas bobas. Posso continuar a falar sobre a regência do verbo preferir?

- Não só pode como deve, Professor Edu. Prefiro mil vezes ouvir suas esclarecedoras informações a ouvir esses garotos bobos implicando com a gente.

- Ok, Luana, boas falas! Então seguindo... Olha, turma, se eu colocar, no exemplo que dei, um artigo "a" antes de feijoada: "prefiro a feijoada à galinhada", a presença do artigo "a" antes de feijoada exigirá que também eu empregue outro artigo antes de galinhada, acarretando desse modo o surgimento do fenômeno da crase, porque teremos a contração de dois "à" num só, marcado pelo acento grave, sendo um deles preposição e o outro artigo feminino.

- Professor Edu, então como eu gosto mais de cinema que de teatro, tá certo eu dizer que prefiro o cinema ao teatro?

- Sim, Fred, está corretíssimo! Agora uma última observação sobre o verbo preferir. Também não devemos empregá-lo com os advérbios "mais" e "antes". Assim, é errado dizer que: "Eu prefiro mais esta camisa que aquela"; "Eu prefiro antes tomar banho e depois jantar"...

- Ah, Mestre, me desculpe... Mas eu, descaradamente, prefiro jantar a tomar banho quando estou morrendo de fome...

- Na verdade, Lucas, você prefere fazer qualquer coisa a ter que tomar um bom banho! Eheheh...

- Bem, pessoal, antes que o Lucas tenha um ataque apoplético, já que seu rosto ficou totalmente avermelhado com esse comentário um pouco comprometedor da Janete, quero lhes dizer que na próxima aula falaremos sobre os sufixos -ês e -esa, empregados na formação de nomes que designam títulos honoríficos de posição social, assim como em palavras que indicam origem e nacionalidade, aproveitando o mote surgido no Tira-Dúvidas de hoje sobre a nacionalidade do nosso amigo pipoqueiro. Veremos também palavras que são grafadas com o sufixo -isa; palavras, por exemplo, que indicam ocupações femininas.

- Como poetisa, profetisa, pitonisa, né, Professor?

- Sim, Janete.

- E o que é pitonisa, Mestre?

- Bem, Luana, na Grécia antiga, era a sacerdotisa do deus Apolo, uma mulher que possuía o dom da profecia, ou seja, que supostamente conseguia prever o futuro. É o feminino de piton, que significa profeta, adivinho...

- Legal, mestre! Eu gostaria de ter esse dom...

- Seria bom mesmo se você tivesse esse dom, Dona Janete... Pois assim você poderia prever o que irá lhe acontecer em breve depois de ter feito aquele comentário maldoso a respeito da minha higiene pessoal...

- Hummm, que medo eu fiquei agora do Luquinhas, galera!!!

- Bem, pessoal, profecias e ameaças a parte, tenho que ir. A outra escola me espera...

- Só uma última perguntinha, Mestre, é rapidinho...

- Ok, Fernando, qual é a dúvida?

- É que ontem eu tive que preencher uma ficha de inscrição para um concurso Internacional de Poesia, e onde estava escrito para eu colocar a minha nacionalidade, eu escrevi brasileiro; mas fiquei na dúvida se para concordar com a palavra nacionalidade, eu deveria ter escrito brasileira...; e também estou na dúvida se participo mesmo desse concurso, ou não...

- Oh, que surpresa! Não sabia que tínhamos um jovem poeta nesta turma!? Vou querer ler seus poemas um dia desses, está bem, meu rapaz? Adoro poesia!

- Ah, Professor, acho que não tenho coragem de mostrar os meus poemas para o Senhor... Não sei se são tão bons assim.....

- Deixa de ser modesto, Nando, seus poemas são maravilhosos! E acho que você tem grande chance de ganhar um concurso de poesia.

- Bem, se a Norminha, que é uma grande apreciadora deste gênero literário, disse que seus poemas são maravilhosos, então acredito que eles sejam bons mesmo; e você está intimado a me enviar, por e-mail, alguns deles para eu conhecê-los!

- Está bem, Mestre! Mando, sim. Depois então o Senhor me diz se eles têm realmente algum valor literário, ou não, e se eu tenho alguma chance de ganhar um concurso de poesia, como a Norminha falou, combinado?

- Combinado, meu rapaz! Agora quanto à sua dúvida, esclareço que em relação ao preenchimento de formulários ou fichas de inscrição, o correto é escrever brasileiro, quando for homem; e brasileira, quando for mulher. Da mesma forma, no campo referente ao estado civil, deve-se colocar, por exemplo, solteiro ou casado; solteira ou casada, de acordo com o gênero da pessoa: se masculino ou feminino. No entanto, se você for construir uma frase do tipo "a nacionalidade do Fernando é brasileira", só podemos empregar a forma feminina "brasileira", a fim de concordar com "nacionalidade". Entendeu?

- Entendi, Professor. Ainda bem que preenchi a ficha de forma correta. Mesmo assim, valeu a pena ter nos dado mais esse toque!

- Então, como disse, linda e sabiamente, seu xará Fernando Pessoa, o grande poeta lusitano: "Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador
                    tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu."

- Ah, Professor Edu, esse poema do Pessoa é lindo!!!

- Também acho, Norminha. E qualquer dia podemos conversar mais sobre este encantador vate português.

- Vate português? O que é vate, Mestre?

- O Tira-Dúvidas acabou de acabar, meu caro Lucas! Procure no dicionário o significado de vate. E procurem ler mais poesia, pessoal! E se desejam realmente sonhar, "viajar por mares nunca dantes navegados", se encantar, se enriquecer poética e filosoficamente; se verdadeiramente desejam que suas almas não sejam pequenas, leiam e saboreiem Fernando Pessoa! Abraços poéticos a todos, e até a próxima aula!


"A competência para grafar corretamente as palavras está diretamente ligada ao contato íntimo com essas mesmas palavras. Isso significa que a frequência do uso é que acaba trazendo a memorização da grafia correta. Além disso, deve-se criar o hábito de esclarecer as dúvidas com as necessárias consultas ao dicionário. Trata-se de um processo constante, que produz resultados a longo prazo."

(Pasquale Cipro Neto & Ulisses Infante, Gramática da Língua Portuguesa)


LEMBRETES IMPORTANTES AOS DEFICIENTES VISUAIS:

1. PROCURE LER TAMBÉM EM BRAILLE, ELE O AJUDARÁ A FIXAR MELHOR A GRAFIA DAS PALAVRAS.


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Bons estudos e ótimas leituras!

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Professor responsável: Eduardo Fernandes Paes - Rio de Janeiro, RJ


"Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma, continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O Professor, assim, não morre jamais..." - Rubem Alves


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