LIÇÃO10
UM TOQUE NA LÍNGUA - Lição10

Criação: Prof. Eduardo F. Paes - Porto Alegre, RS




   De volta à praça, onde há pouco mais de um mês e meio fora instituído pelo Professor Edu e seus alunos o Dia do Tira-Dúvidas, todos se reúnem novamente para uma nova série de perguntas e indagações sobre diversos pontos da Língua Portuguesa.


   Zeca, um dos primeiros alunos a chegar e, notadamente, um dos mais entusiasmados com a criação daquele dia especial, dirige-se rapidamente ao Professor Edu, a fim de revelar-lhe o seu contentamento por voltarem àquele ambiente alegre e informal.

- Bom dia, Mestre! Tudo bem com o Senhor? Olha, eu tava ansioso pra que este dia chegasse logo, porque achei muito legal a nossa primeira experiência de tirar as nossas dúvidas fora da sala de aula. Não sei porquê, mas aqui na pracinha o clima é bem melhor, e a gente fica muito mais à vontade para perguntar ao Senhor o que quisermos. Isso realmente veio de encontro ao um desejo que sempre tive de aprender o português de uma forma mais simples e descontraída...

- Bom dia, Zeca! Mas afinal, você é contra ou a favor do nosso encontro aqui na pracinha para realizarmos o Dia do Tira-Dúvidas?!...

- Ora, Professor Edu, é claro que sou a favor! O que levou o Senhor a pensar o contrário?

- Zeca, meu rapaz, eu entendi perfeitamente que você teve a intenção de dizer que era favorável ao Dia do Tira-Dúvidas. Isto está claríssimo no brilho de seus olhos e na inflexão animada de sua voz. No entanto, fiz-lhe a pergunta, em tom de espanto e dúvida, pois queria aproveitar uma expressão que usou de forma inadequada para começarmos logo os nossos toques de hoje.

- Ah! Que susto, Mestre! Pensei que tava passando uma idéia errada pro Senhor e, de repente, também pra turma... Mas qual foi a expressão que usei de forma inadequada?

- É que você falou, em determinado momento, que a idéia da criação do Dia do Tira-Dúvidas veio "de encontro a" um desejo que você sempre teve de aprender o português de uma forma mais simples e descontraída. A expressão "de encontro a", em verdade, equivale a se dizer que é contra algo. Já se usarmos "ao encontro de", estaremos afirmando que somos favoráveis a um fato ou a uma idéia. Por exemplo: se você falasse isso para uma pessoa que não conhece muito bem suas idéias, seu temperamento, enfim, não conhece muito bem seu modo de ser e reagir, como eu conheço, esta pessoa poderia realmente pensar que você estava contra estes nossos descontraídos encontros aqui na pracinha, no caso, é claro, de esta pessoa também saber a diferença de sentidos dessas expressões. Entendeu, Zeca?

- Entendi, sim, Mestre. Puxa! Sabe que, para mim, estas duas expressões significavam a mesma coisa!?

- E para mim também, Professor Edu! Aliás, por falar em expressões... Aproveito para tirar com o Senhor uma dúvida que tenho sobre outras duas expressões: quando a gente deve usar "à medida que" e "na medida em que"?

- Boa pergunta, Janete. Essa é uma outra dúvida muito comum entre as pessoas. Veja bem: A expressão "à medida que" deve ser empregada quando significar "à proporção que". Por exemplo: "Naquela fábrica, ao lado da escola, senhas eram distribuídas aos candidatos a vagas de emprego à medida que, isto é, à proporção que eles entravam na fila de inscrição."

- Aí, Mestre! Que tal mais este exemplo: "À medida que as minas foram chegando aqui na pracinha, a atmosfera foi ficando muito mais perfumada, e o cenário, bem mais florido!"

- Hummm, Luquinhas! Tá apaixonado por alguém, é?... Será que é por mim?...

- Fala sério, mina! Já lhe disse várias vezes que você não faz meu tipo... Aliás, nem sei se você faz o tipo de algum cara! Ahahah...

- Que isso, Lucas! A Janete é um amor de garota. E até acho que vocês dois formam um casal bem interessante...

- Que isso digo eu, Mestre! Tá de brincadeira comigo?! O Senhor já reparou na distância que separa as estruturas moleculares dos nossos corpos, quero dizer, do meu e do dela? Eu sou saradézimo, enquanto a Janete... Bem, não preciso nem dizer... é só dar uma sacada na figura...

- Ah! Meu queridinho. Sei que você fala essas coisas só para disfarçar, porque no fundo, no fundo, você não tira os olhos de cima de mim!

- Puts! Galera, ninguém merece isso!

- Ok, gente! Olhares de amor à parte, vamos prosseguir com o nosso Tira-Dúvidas. Eu estava explicando que a expressão "à medida que" deve ser empregada quando tiver o sentido de "à proporção que", certo!? Bem, já a outra expressão "na medida em que", deve ser usada quando significar "no momento, no instante em que". Por exemplo: "No momento, ou no instante, em que o Lucas e a Janete deixarem de implicar tanto um com o outro, irão perceber que poderão ser excelentes amigos, ou quem sabe..."

- Tá bom, meu bom Mestre! Esqueçamos o "quem sabe" e fiquemos só com o possível..., o provável..., o meio remoto "excelentes amigos"... Mas agora sou eu que tenho outra dúvida para o Senhor.

- Então, diga lá, meu rapaz!

- Quando é que a gente usa a expressão "acerca de", com o "a" junto à palavra "cerca", e "a cerca de", com ele separado dela?

- Olha, Lucas, quando significar "perto de, a uma distância de, aproximadamente, nas proximidades de...", devemos escrever "a cerca de" separado. Por exemplo: quando digo a você que minha casa fica a cerca de vinte quilômetros de nosso colégio, este "a cerca" deve ser escrito separadamente. E devemos escrever "acerca de", tudo junto, quando este termo for uma locução prepositiva e tiver o sentido de "sobre, a respeito de...". Por exemplo: "Você até o momento não disse coisa alguma acerca da derrota do seu Mengão para o meu Vasco da Gama nesse último fim de semana."

- Xiiii, Mestre! Precisava me lembrar dessa tragédia logo agora? Isso pode prejudicar toda a aprendizagem dos toques que o Senhor está nos dando, hoje, aqui na pracinha... Vamos esquecer isso, falou?!

- Ok, Lucas! Vamos deixar o seu glorioso Mengão pra lá, e voltemos ao nosso Tira-Dúvidas. Quero aproveitar ainda este tópico para esclarecer a todos vocês que ainda existe a expressão "há cerca de", com a significação de "existe, faz aproximadamente...", sendo o "há", desta vez, uma forma do verbo haver. Guardem os seguintes exemplos: "Há cerca de cem candidatos para cada vaga no concurso que a Prefeitura do Rio vai realizar na próxima semana"; "Não vejo o ex-diretor de nossa escola há cerca de cinco anos."

- Puxa, Professor Edu! Esse toque foi legal mesmo!

- E ainda faço mais uma observação, Janete: A expressão "cerca de", quando indicar uma quantidade aproximada, deve ser acompanhada de um número arredondado, nunca de um número preciso. Desse modo, faz sentido dizermos "Cerca de trezentos alunos estavam na palestra que o escritor Rui Castro fez ontem em nossa escola". No entanto, se soubéssemos o número exato, dispensaríamos o "cerca de" e diríamos: "Na palestra do escritor Rui Castro, havia 321 alunos." Guardaram?

- Guardamos, Professor! Escuta, a partir de amanhã começam as provas de todas as disciplinas. Por que não continuamos a nos reunir aqui na pracinha, pra o Senhor prosseguir com esses seus valiosos toques pra nos ajudar a entender melhor os pontos que vão cair na sua prova?

- Olha, Janete, por mim tudo bem. Eu acho muito gostoso este contato com meus alunos ao ar livre, neste clima mais solto e sem um compromisso tão rígido com o tempo. Basta agora saber se o restante do grupo também concorda com sua proposta.

- Legal, Mestre. Também gostei dessa idéia da Janete. Deixa comigo que depois vou procurar saber quem vem aos nossos Tira-Dúvidas e mando um torpedo pro seu celular, dizendo isso, falou? Fique no aguardo de uma resposta minha. Aliás, Professor Edu, antes de o Senhor ir embora, me diga se o certo é falar "no aguardo de", ou "ao aguardo de" uma resposta?

- Meu caro Zeca. Em verdade, as pessoas ficam "à espera", e não "na espera" de alguém ou de alguma coisa. Assim, o correto será dizer que eu ficarei "ao aguardo de sua resposta". Certinho?! Um abraço a todos e até o nosso próximo encontro. Tchau!


"A competência para grafar corretamente as palavras está diretamente ligada ao contato íntimo com essas mesmas palavras. Isso significa que a freqüência do uso é que acaba trazendo a memorização da grafia correta. Além disso, deve-se criar o hábito de esclarecer as dúvidas com as necessárias consultas ao dicionário. Trata-se de um processo constante, que produz resultados a longo prazo."

(Pasquale Cipro Neto & Ulisses Infante, Gramática da Língua Portuguesa)


UM TOQUE IMPORTANTE AOS DEFICIENTES VISUAIS:

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"Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma, continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O Professor, assim, não morre jamais..." - Rubem Alves


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Responsável: Prof. Eduardo F. Paes (Porto Alegre, RS)


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