LIÇÃO04
UM TOQUE NA LÍNGUA - Lição04

Criação: Prof. Eduardo F. Paes - Porto Alegre, RS




   No segundo dia em que uma das escolas onde o Professor Edu lecionava continuava fechada, assim como todo o comércio do bairro, por ordem dos chefões do tráfico de drogas, ele novamente reuniu seus alunos no ainda belo e conservado jardim da praça defronte ao colégio para uma espécie de continuação do Dia do Tira-Dúvidas, proclamado, na véspera, com o aval entusiasmado de todos os estudantes.


   Enquanto o círculo de alunos se formava ao redor do Professor Edu, com muitos se apertando nos poucos bancos de madeira e outros sentando-se no gramado recém-aparado, um dos jovens, que também participara da efeméride do dia anterior, aproxima-se do professor e, com um sorriso revelador nos lábios, comenta:

- Mestre, sabe que ontem à tarde, no cursinho de inglês que freqüento, eu falei para meus colegas sobre a criação do Dia do Tira-Dúvidas aqui em nossa escola, e eles acharam o maior barato! Acharam tão legal que me disseram que iam levar a idéia para os professores de suas escolas também. E um deles até sugeriu que o nosso professor de inglês fizesse a mesma coisa; mas o nosso teacher fez uma cara de quem comeu e não gostou e nos disse que ia pensar no assunto e depois nos dava uma resposta.

- Puxa, que legal, Zé Luís! Só lamento não haver uma praça tão gostosa como esta, em frente a cada colégio, para facilitar esses encontros. No entanto, a criatividade humana está aí mesmo para encontrar soluções que superem certos obstáculos... O principal é se conseguir a concordância e a união de professores e alunos, além, é claro, da permissão da direção da própria escola. Tendo conciliado esses primeiros pontos, o resto são detalhes!

- Pois é, Mestre. E pensar que isso tinha passado desapercebido pelos outros professores por um bom tempo...

- Opa, Epa, Opa!!!

- O que foi, Professor Edu? Eu disse alguma coisa que não devia?...

- É que vou aproveitar uma palavrinha que você usou inadequadamente nessa sua última observação para começarmos logo o nosso Tira-Dúvidas de hoje.

- E que palavrinha foi essa, Mestre?

- Desapercebido. Uma palavra que muita gente pensa que está empregando corretamente quando quer dizer, na realidade, não percebido, não visto, ou seja, que não havia percebido ou visto alguma coisa. Nesse sentido, devemos usar o termo despercebido, e não desapercebido, cujo significado, na verdade, é desprevenido, desprovido, desguarnecido.

- É mesmo, Professor. Tenho visto na televisão muita gente importante, muita autoridade falar desapercebido em vez de despercebido...

- Verdade, João. E outra coisa que também não vou deixar passar despercebida é essa expressão que você acabou de usar igualmente de forma inadequada... Você deveria ter empregado, no contexto em que falou, a expressão ao invés de, e não em vez de, pois esta última é equivalente a dizer em lugar de, e não foi exatamente essa a idéia do que você queria expressar. Observe que você está contrapondo duas idéias bem distintas: os significados dos vocábulos desapercebido e despercebido. Cada um deles exprime uma idéia contrária a do outro. Sendo assim, a frase correta será: Tenho visto na televisão muita gente importante, muita autoridade falar desapercebido ao invés de despercebido. A expressão ao invés de equivale a dizer ao contrário de. Veja mais estes dois exemplos para fixar bem: Bárbara resolveu se dedicar à dança ao invés de Alice, que preferiu estudar canto lírico. Temos aqui duas opções de estudo contrárias. Aquele táxi entrou à direita ao invés de entrar à esquerda. Nessa frase, direita e esquerda se opõem. Vou lhe dar mais dois exemplos, mas agora em relação à expressão em vez de, a qual, como eu disse antes, equivale à expressão em lugar de. Preste atenção: Em vez de Pedro, Paulo foi o orador da turma, isto é, um tomou o lugar do outro. Paulinho foi à praia em vez de ir ao jogo de futebol. Ir à praia e ir ao jogo não são coisas opostas, e sim lugares diferentes. Guardou, João?

- Ihihihih, galera, o Mestre hoje tá a fim de pegar os erros de todo mundo! Cuidado, gente! Acho que nem vou abrir mais minha boca, chega o mico que já paguei ontem com aquela história de onde e aonde...

- Agora já é tarde, meu caro Lucas! Nessa sua breve e irreverente intervenção, você acabou me oferecendo mais duas dicas para eu poder dar mais alguns toques na turma. Guarde aí: daqui a pouco vou lhe perguntar quando a gente deve escrever a fim separado e afim junto; e também qual a diferença de se escrever a palavra história, com h e i, e estória, com e.

- Ah, Mestre, ninguém merece! Pra que eu saí da minha cama quentinha hoje... Puts!

- Que é isso, Lucas! Que má vontade toda é essa!? Você está até me ajudando a dar uns toques na galera, pra todo mundo ficar mais esperto. Veja as coisas com mais otimismo, sob outro ângulo...

- Nananinanão, meu bom Mestre! Nem me fale em ângulo, que amanhã eu tenho prova de matemática e essa parte de ângulos me deixa meio obliterado...

- Meio o quê, maluco?

- Meio obliterado, João! Se não sabe o que significa essa palavra, Seu Mané, vai procurar no dicionário ou então pergunta ao Professor Edu, já que hoje é o dia do Tira-Dúvidas. Não tenho culpa se você não é um intelectual como eu, que aterroriza nas aulas de literatura...

- Intelectual, você, Lucas!? Fala sério, cara!!! Mas realmente, aterrorizar você faz bem... porque é um terror de tão feio!

- Ei, rapazes, vamos parar com essa troca de carícias e voltar ao nosso Tira-Dúvidas!

- Foi mal, Mestre, desculpe a gente!

- Tudo bem. Então vamos prosseguir. Zé Luís, você guardou bem a explicação que dei para a diferença de significados das palavras despercebido e desapercebido?

- Sim, Professor!

- Então agora explique você mesmo novamente para a turma, dando alguns exemplos com esses dois termos.

- Bem, Mestre, eu entendi que devemos usar despercebido quando queremos dizer que alguma coisa não foi percebida ou não foi vista; e usar desapercebido quando quisermos falar desprevenido, desprovido, não é isso?

- Sim, é isso mesmo. E cadê os exemplos?

- Ah, é, tinha esquecido! Bem... é... hummmm... que tal estes: o tombo que a Flávia levou, quando estava dançando, passou despercebido por todos que estavam na festa...

- Caraca! A mina leva um tombo quando tá dançando e ninguém vê?! Ou é uma festa onde já tá todo mundo doidão, ou então é uma festa onde só tem ceguinhos, como você, Zezinho!

- Xiiii, Zé Luís, o piadista profissional da turma agora vai pegar no seu pé...

- Deixa ele comigo, Luana! Eu acerto as contas com ele depois...

- Uiuiui, que medo do ceguinho valente e sua bengalinha atômica!!!

- Gente, vamos parar com isso!!!

- Lucas, anote aí mais uma palavrinha para eu depois comentar: caraca. Essa gíria, quase escatológica para mim, que atualmente a maior parte das crianças, dos jovens e de até mesmo uma boa parcela dos adultos andam falando por aí...

- Gíria escato... o quê, Professor Edu?

- Escatológica, meu caro Lucas. Depois eu explico melhor isso. Deixe agora o Zé Luís terminar de dar os exemplos dele.

- Bem, só falta o exemplo com desapercebido... Que tal este: o homem desapercebido de amigos é um homem infeliz!

- Muito bom, meu rapaz! Grande verdade essa que você usou como exemplo. Parabéns!

- Obrigado, Mestre! Mereço um dez?

- Isso não foi um teste nem uma prova, Zé Luís. Mas você se saiu muito bem, tanto nas explicações quanto na escolha dos exemplos. Quero ver mesmo na hora da prova se consegue repetir a performance que teve aqui na pracinha...

- Deixa comigo, Mestre, tá tudo beleza! Quer dizer, quase tudo. O senhor sabe me dizer quando o nosso colégio vai disponibilizar um computador com o Sistema DOSVOX para mim?

- Ouvi a diretora falar que isso deverá acontecer na próxima semana, Zé Luís. E vai ser uma ótima para você, não é verdade?

- Pô, Professor Edu, vai ser mesmo!

- Nossa mãe!!! o Zezinho é um ceguinho bem folgado mesmo! A escola já conseguiu uma impressora em braille, para ele poder fazer as provas, etc e tal; e o carinha agora quer um micro só pra ele, com esse tal de Dois Vox... Aliás, nem sei direito o que é esse negócio aí que ele tá querendo... Só sei que daqui a pouco vai querer um Três Vox, um Quatro Vox... um Cinco Vox... Puts, ninguém merece!

- Tá vendo, Mestre. O cara nem sabe o que é o Dosvox e já tá falando mal e um monte de besteira sobre o programa...

- Bem, meu querido Lucas, se não sabe o que é o DOSVOX, vou passar-lhe então a tarefa de pesquisar sobre o assunto e depois fazer uma exposição para a turma, valendo três pontos para a próxima prova.

E não adianta ficar com essa cara de fantasma embasbacado, porque agora é a sua vez de tentar nos explicar e exemplificar a diferença entre as formas afim e a fim, escritas junta e separadamente; e também quando escrevemos história, com h e i, e estória, com e.

- Xiiii, meu bom Mestre, acho que não vai dar, não! Acho que estou tendo uma crise de desinteria... e por isso vou ter que procurar um banheiro rapidinho... Hummmm!

- Bem, se você está com desinteria, então pode perfeitamente responder ao que lhe perguntei, já que o certo é disenteria, que significa mau funcionamento dos intestinos, inflamação intestinal. O prefixo dis tem o sentido de dificuldade, mau funcionamento. É o mesmo que aparece em disfagia, que é ter dificuldade na deglutição, ou seja, para comer; Também encontramos este prefixo em dispepsia: dificuldade de digerir um alimento, isto é, dificuldade que alguém possui em sua digestão; e ainda dislalia, que é a dificuldade na fala, na dicção; dispnéia, dificuldade na respiração; e disritmia, que se traduz por um distúrbio de ritmo. Guardou, meu displicente Lucas?

- É, Mestre, não adianta disfarçar, que o Senhor não fica distraído mesmo, né?

- Isso mesmo, Lucas. Agora, sem mais distrações e rodeios, vamos às explicações e aos exemplos que pedi.

- Falou, Mestre Edu! Olha, eu me lembro mais ou menos de que o Senhor já nos ensinou uma vez esse negócio de afim junto e separado... Olha só, eu acho que é tipo assim: se eu estiver interessado numa garota, eu posso mandar pelo meu celular um torpedo pra ela, dizendo que estou muito a fim dela, e esse a fim se escreve separado, certo, Mestre?

- Certíssimo, meu rapaz. Parabéns, é isso mesmo! E quanto à forma afim escrita sem separação?

- Bem, aí já complicou o cenário... Deixa eu pensar um pouquinho só...

- Olha, Lucas, não pense muito, não, senão a gente não vai agüentar o fedor que vai ficar aqui na pracinha...

- Ah, é, Seu Mané! Você vai sentir um fedor quando eu quebrar sua cabeça depois que esta aula acabar!!!...

- João, pare de implicar com o Lucas, já que ele está até se esforçando para nos dar as explicações corretas.

- Mas é por causa desse esforço todo que ficamos preocupados com o que pode acontecer, Professor Edu!

- Mas até você, Norminha, pegando no pé do rapaz?!

- Desculpe, Professor, mas não pude resistir!

- Tá bom, gente, agora chega! - Lucas, já pensou num exemplo para a forma afim escrita junta?

- Tava quase saindo, meu bom Mestre; mas esses palhacinhos aí me tiraram a concentração e... não deu pra lembrar mesmo...

- Certo, Lucas. Então vou refrescar-lhe a memória. Devemos empregar a forma afim, sem separação, quando ela significar semelhança ou afinidade com algo ou alguém; ou ainda que possui parentesco por afinidade; alguma coisa próxima, vizinha a algo. Exemplos: ele não é meu tio de fato, porém é um antigo afim de nossa família; aquela estradinha de terra parece afim à rodovia principal; meu gosto não é afim ao seu em matéria de música...

- Isso é verdade, Mestre! Eu gosto de heavy-metal, funk, hip-hop... e o Senhor tem cara que só gosta daquelas músicas chatérrimas e de enterro, que chamam de música clássica... Argh!

- Sem comentários por enquanto, Lucas. Vamos deixar estas questões de gostos musicais afins ou não afins para uma próxima ocasião. Hoje não estou a fim, ou seja, não tenho a finalidade de debater este tema aqui na pracinha. Sacou, my brother?

- Saquei, Teacher! Olha só, quanto àquele negócio de história, que se escreve com h ou com e, eu queria dizer que...

- Lucas, vamos deixar isso para a nossa próxima aula, bem como a explicação que eu ia dar sobre a palavra caraca, pois já estou em cima da hora para pegar no outro colégio; por isso, turma, por hoje é só. Até a próxima semana, lá na escola. Valeu! Tchau!


"A competência para grafar corretamente as palavras está diretamente ligada ao contato íntimo com essas mesmas palavras. Isso significa que a freqüência do uso é que acaba trazendo a memorização da grafia correta. Além disso, deve-se criar o hábito de esclarecer as dúvidas com as necessárias consultas ao dicionário. Trata-se de um processo constante, que produz resultados a longo prazo."

(Pasquale Cipro Neto & Ulisses Infante, Gramática da Língua Portuguesa)


UM TOQUE IMPORTANTE AOS DEFICIENTES VISUAIS:

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"Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma, continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O Professor, assim, não morre jamais..." - Rubem Alves


Estude e informe-se em:

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Responsável: Prof. Eduardo F. Paes (Porto Alegre, RS)


"É pela educação, mais do que pela instrução, que se transformará a Humanidade." - Allan Kardec


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