LIÇÃO03
UM TOQUE NA LÍNGUA - Lição03

Criação: Prof. Eduardo F. Paes - Porto Alegre, RS




   Ao se aproximar da primeira escola onde lecionava, o Professor Edu avistou uma pequena multidão à porta do estabelecimento de ensino, num burburinho bem mais agitado que o dos dias normais de aula.


   Pressentindo, diante daquele cenário inusitado, que o dia lhe reservaria surpresas, as quais decerto ainda não tinha condições de prever de que espécie seriam, instintivamente foi diminuindo o ritmo de seus passos, pois, em sua direção, vinha um bando de alunos agitados e apreensivos.


   O primeiro aluno a chegar perto dele foi o Andrezinho, que sempre fazia questão de dar, em primeira mão, as notícias de tudo que se passava na escola. Ainda meio ofegante pelo esforço da corrida que fizera para chegar na frente dos outros alunos, Andrezinho, engolindo as letras finais das palavras junto com bocados de ar para se recuperar da correria, tenta explicar o que estava acontecendo:

- Profess.. Edu..., o Senho.. nem sab... o que aconteceu!...

- Calma, Andrezinho! Respira primeiro um pouco mais e me conte direito o que está acontecendo. Por que essa correria toda de vocês? E o que significa aquele tumulto na porta da escola?

- Ah, Professor! É que hoje de madrugada mataram o dono da boca de fumo do morro que fica atrás da escola, e os outros traficantes que trabalhavam pra ele mandaram fechar o comércio e a nossa escola!

- De novo! Mas já é a terceira vez que acontece isso este ano...

- Pois é, Mestre. Toda vez que matam um dos chefes deles, eles mandam fechar o comércio e as escolas daqui do bairro.


   Quando encontra-se totalmente cercado por seus alunos, ainda bastante nervosos e preocupados com os acontecimentos e já achando terem perdido mais um dia de aula, aproxima-se a Diretora da escola, à frente de cinco professores não menos assustados que os jovens estudantes. Com um misto de medo, indignação e impotência no olhar, Dona Dulce encara o Professor Edu e diz:

- Professor, os alunos já devem ter-lhe dito o que está acontecendo, não?

- Sim, já me contaram. E acho lamentável que isso se repita mais uma vez. Já é a terceira este ano, não é verdade?

- Exatamente. E desta vez a ordem é para ficarmos fechados durante dois dias.

- Mas isso é um absurdo! Ficar dois dias sem darmos aulas por ordem do tráfico!? Isso não pode acontecer. A Senhora já chamou a polícia?

- Sim, eu já informei a eles o ocorrido, mas... sabe como é. Eles vêm hoje, permanecem o dia todo na porta da escola, voltam amanhã em menor número, prometem que está tudo sob controle, que podemos dar nossas aulas tranqüilamente, porém, no terceiro dia, não vemos mais nenhum policial por aqui e tudo volta ao Deus dará... O Senhor já sabe muito bem como é isso. Sendo assim, não posso colocar em risco a segurança dos nossos alunos, professores e demais funcionários. O negócio é fechar mesmo e esperar a coisa esfriar...

- É... e enquanto esperamos as coisas esfriarem, o ânimo e o gosto de estudar da maioria de nossos alunos vão esfriando junto, não é mesmo, Dona Dulce!?

- Lamento, Professor Edu; mas realmente não posso fazer mais nada além do que já fiz. Sinto muito!

- Eu também sinto muito, Dona Dulce. No entanto, eu já sei o que vou fazer para meus alunos não perderem dois dias de aulas, que podem significar muito para eles.

- E o que o Senhor pretende fazer, Professor? Não vá colocar em risco a vida desses jovens com alguma novidade pedagógica revolucionária, como as que o Senhor costuma empregar em sua sala de aula, ouviu bem!?...

- Ora, ora, Dona Dulce! Não sabia que a Senhora me via como um revolucionário perigoso!... É óbvio que não desejo, em momento algum, colocar em risco a vida de meus alunos. Eu simplesmente vou ministrar minhas aulas como o filósofo Sócrates fazia em seu tempo, ou seja, vou para o belo jardim daquela pracinha em frente à nossa escola dar normalmente minhas aulas de língua portuguesa. Os traficantes podem ordenar que se fechem as lojas, as fábricas, as escolas e até o Palácio do Governo; mas eles não têm a força, não possuem o poder de fechar as praças onde a voz do povo é livre, forte e autêntica! Afinal, Dona Dulce, alguém já não falou um dia que a praça é do povo!?


   E virando-se para os jovens , que observavam calados e ansiosos por saber o desfecho daquele insólito embate , brada o Professor Edu aos seus atentos alunos o inesperado convite:

- Vamos lá, galera! Quem for brasileiro, livre e amante do nosso rico e belo idioma, que me siga!

- E aonde vamos, Mestre? - pergunta Luana, meio assustada.

- Não é aonde vamos, minha linda e inteligente lourinha. O certo é onde vamos! Acho que você tá precisando escurecer um pouco os seus cabelos, gatinha!Não é mesmo, Professor Edu?

- Lucas, meu rapaz, veja bem: nós estamos indo para a pracinha ali em frente. E se estamos indo para a praça, estamos certamente indo para algum lugar, não concorda?

- Mas isso tá na cara, Mestre. E daí?

- Bem, se estamos em movimento, nos dirigindo a algum lugar, o correto será perguntar para onde nós vamos, ou aonde nós vamos. Guardou, Lucas?

- Guardei, Mestre. Mas a palavra onde também não indica um lugar?

- Sim, também indica. Porém, um lugar em que alguém ou alguma coisa está, permanece. Por exemplo: se eu quiser saber em que lugar você mora, a pergunta será: Lucas, onde você mora? Ou ainda:Onde fica sua casa, Lucas?

- Ihihih, Professor. Minha casa fica tão longe que nem vale a pena dizer...

- Gostei do gracejo, meu rapaz! Mas você agora percebeu que sua colega Luana, a loirinha linda e inteligente com quem você quis fazer chacota, estava certa em sua pergunta a mim?

- É, Mestre, fazer o quê, né!? Até as lourinhas de vez em quando acertam, não é mesmo!?

- Professor Edu, não fique dando atenção a esse idiota do Lucas, que é recalcado porque não é louro também. Ele fica o tempo todo sacaneando as garotas louras da escola com piadinhas de mau-gosto em vez de levar os estudos a sério. É por isso que vive tirando notas baixas!!!

- Calma, Luana! Não precisa ficar tão irritada assim. Creio que o Lucas estava realmente só brincando, sem a intenção de ofendê-la. Não é mesmo, meu rapaz!? E que também está querendo garantir o seu pontinho por bom comportamento no final do ano, não é verdade!?...

- Mas é claro, meu bom Mestre! Foi tudo só brincadeirinha, viu, Luaninha! Me desculpe, tá legal?

- E afinal de contas, Luana, o Lucas acabou me proporcionando uma oportunidade de esclarecer a vocês a diferença de emprego dos advérbios onde e aonde. E ainda sobre este tema, alguém aqui já ouviu em algum lugar o termo donde?

- ...

- Ok, o silêncio já me respondeu. Vejam bem: será que algum de vocês nunca perguntou a uma outra pessoa de onde ela vinha? Ou mesmo de onde algo havia surgido?

- Claro que sim, Professor! Mas o que essas perguntas têm a ver com o tal do donde?

- Tudo a ver, meu caro Fred. O termo donde nada mais é do que a contração da preposição de com o advérbio onde. Assim sendo, quando você pergunta donde alguém veio, é a mesma coisa do que perguntar de onde essa pessoa veio. Guardou, meu rapaz?

- Mais ou menos, Mestre, acho que a coisa ficou meio confusa...

- Vou recapitular, então, para ficar bem entendido para todo mundo. Devemos usar o advérbio aonde com verbos que indicam movimento, como ir, dirigir-se, etc. Exemplos: Aonde você vai? Aonde aquele ônibus se dirige? Aonde você quer chegar? Empregamos onde com formas verbais que indicam permanência, como os verbos estar, ficar, permanecer... Exemplos: Onde nós estamos? A casa onde moro fica ao lado de uma igreja. Permaneça onde está. E por fim, donde, que é a mesma coisa que de onde, deve ser empregado com verbos que indicam procedência, origem: Donde vieram seus pais? Donde enviaram esses livros? Tudo certinho, gente?

- Legal, Mestre! Acho que agora deu pra guardar tudo direitinho.

- Que bom, Fred!

- Mestre, O Lucas com suas gracinhas sobre mulheres louras acabou me colocando outra dúvida na cabeça...

- E qual foi, Luana?

- É que ele e muita gente falam louras, lourinhas; e o Senhor usou a palavra loirinhas, como também já ouvi muitas pessoas falarem... Afinal, o certo é loura ou loira?

- Querida Luana, as duas formas estão corretas. As palavras loira, loirinha, que eu acho sonoramente mais agradáveis, são variantes das formas loura e lourinha. Podemos perceber esta variação do ditongo ou para oi em numerosos voc bulos. Por exemplo, em calouro e caloiro, dourado e doirado, balou‡ar e baloi‡ar, forma verbal que, para quem achou estranha, é o mesmo que balançar. Guardaram?

- Ei, Mestre, essa foi dez! Gostei também de saber disso aí. E olha só: eu não sou recalcado coisa nenhuma porque não sou louro... Estou muito satisfeito com a minha morenice mesmo!

- Tudo bem, Lucas, vamos encerrar este assunto por aqui, ok?

- Certinho, Mestre, por mim...

- Professor Edu, como eu acho que todos nós temos muitas dúvidas que às vezes não conseguimos esclarecer com o Senhor na sala de aula por causa dos outros assuntos que temos que estudar, porque então o Senhor não tira um dia por mês para esclarecer agente sobre essas coisinhas? Poderíamos até chamar este dia de o Dia do Tira-Dúvidas. Que tal?

- Legal, Norminha, gostei dessa idéia! Se todos concordarem com ela, podemos separar um dia no mês para fazer isso, sim. O que acham dessa idéia, turma?


   Com muitos alunos aplaudindo e acenando positivamente com a cabeça, e outros assoviando ou gritando palavras e expressões como legal! Valeu! É isso aí!, O Professor Edu sorri satisfeito e decide, falando aos alunos num tom alegre e com gestos meio teatrais, proclamar o Dia do Tira-Dúvidas, que se iniciava naquele mesmo momento, na pracinha em frente à escola, lugar que seria, mais tarde, escolhido também por unanimidade entre os alunos que não estavam presentes nesse primeiro dia, como o local perfeito para se realizar esses elucidativos e descontraídos encontros, fato igualmente aprovado pela direção do colégio.


"A competência para grafar corretamente as palavras está diretamente ligada ao contato íntimo com essas mesmas palavras. Isso significa que a freqüência do uso é que acaba trazendo a memorização da grafia correta. Além disso, deve-se criar o hábito de esclarecer as dúvidas com as necessárias consultas ao dicionário. Trata-se de um processo constante, que produz resultados a longo prazo."

(Pasquale Cipro Neto & Ulisses Infante, Gramática da Língua Portuguesa)


UM TOQUE IMPORTANTE AOS DEFICIENTES VISUAIS:

PROCURE LER TAMBÉM EM BRAILLE, ELE O AJUDARÁ A FIXAR MELHOR A GRAFIA DAS PALAVRAS.


"Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma, continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O Professor, assim, não morre jamais..." - Rubem Alves


Estude e informe-se em:

NOSSA LÍNGUA_NOSSA PÁTRIA - Um sítio a serviço da Língua Portuguesa, da Educação e da Literatura Brasileira.

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Responsável: Prof. Eduardo F. Paes (Porto Alegre, RS)


"É pela educação, mais do que pela instrução, que se transformará a Humanidade." - Allan Kardec


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